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Kahnemaneando: Quando devemos desconfiar dos especialistas

Redação DuMoney 31 de outubro de 2018 atualizado às 11:35

Kahneman diz que devemos ficar sempre atentos aos nossos instintos e mais atentos ainda aos de especialistas. Quando seguir e quando desconfiar? Veja como devemos agir em relação ás previsões de especialistas

Especialista: vale a pena desconfiar da opinião dos  especialistas? / Schutterstock

 

O psicólogo econômico Daniel Kahneman fez sua carreira provando que não somos tão racionais quanto imaginamos. Em seu livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, ele explica as interações entre o sistema 1 (intuitivo) e o sistema 2 (calculista) que ocorre constantemente em nossas cabeças.

Num estudo conjunto com um pesquisador “adversário” – que discordava da teoria dos vieses cognitivos – Kahneman procurou a resposta para a seguinte pergunta: Quando é possível confiar num profissional experiente que alega ter uma intuição?

Juntamente com Gary Klein – líder intelectual de uma associação de teóricos que se auto-intitulavam estudiosos da Naturalistic Decision Making (Tomada de Decisão Naturalista) – Kahneman explica que o pensamento intuitivo não é necessariamente irracional. A intuição é resultado de associações e reflexos mentais rápidos e normalmente muito precisos.

A questão é que reagimos automaticamente a diversos problemas o tempo todo e, na maior parte das vezes, estas reações vêm de nossa habilidade e experiência em lidar com determinadas situações. Mas algumas vezes também temos respostas emocionais imediatas, que não correspondem à nossa capacidade de lidar com o cenário, e aí a intuição falha.

E já que nossa intuição falha temos que ter em mente que a intuição de especialistas também falha. Calma, não é para nunca mais acreditar em nenhuma previsão ou opinião de especialista. Mas sim para aprender a reconhecer em que situações é possível se ter um intuição válida a partir da expertise, e quando não é.

Kahneman explica que a maior parte do nosso comportamento é automático, não é racional no sentido de ser muito deliberado.

Podemos confiar na intuição em geral nas situações em que temos expertise. Essa habilidade intuitiva é o que faz com que as pessoas joguem futebol ou xadrez ou dirijam um carro. Os enxadristas podem confiar na intuição se jogaram milhares de partidas, mas os novatos não podem.

Podemos confiar na intuição ao vivermos uma situação que conhecemos e que tem algumas regularidades que podem ser aprendidas. Se aprendermos essas regularidades no ambiente, podemos confiar na intuição.

É isso que acontece com enxadristas e motoristas. Dirigimos intuitivamente porque temos experiência, mas não é o caso na Bolsa de Valores, por exemplo. Porque não há regularidade para validar intuições a respeito de quais ações vão subir e quais vão cair.

Se a certeza subjetiva não é confiável, como podemos avaliar a validade de um julgamento intuitivo? Quando as intuições refletem expertise genuína? A resposta vem das duas condições básicas para adquirir uma habilidade:

  • um ambiente que seja suficientemente regular para ser previsível
  • uma oportunidade de aprender essas regularidades mediante a prática prolongada.

Para Kahneman e Klein, quando essas condições são cumpridas, pode ser que os especialistas tenham suas intuições comprovadas.

Xadrez é um exemplo extremo de um ambiente regular, mas bridge e pôquer – apesar de dependerem de um pouco de sorte – também fornecem regularidades estatísticas capazes de favorecer a expertise. Médicos, atletas e bombeiros também enfrentam situações complexas mas fundamentalmente ordenadas.

Por outro lado, fazer previsões de longo prazo em um ambiente “instável”, como a Bolsa de Valores e ciências políticas é mais arriscado e requer um pouco mais de senso crítico de quem quer confiar na intuição desse especialista

É válido lembrar que os fracassos em prever eventos em ambientes instáveis, nada tem a ver com competência. Essas falhas refletem a imprevisibilidade básica do evento que o especialista em questão tentou fazer um prognóstico.

 

Em Kahnemaneando

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