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‘Minority Report’ da vida real: o sistema que prevê crimes antes que aconteçam

Redação DuMoney 10 de outubro de 2018 atualizado às 15:32

O sistema de monitoramento do filme Minority Report está cada vez mais próximo da realidade. Softwares que preveem comportamentos estão sendo usados para impedir crimes de acontecerem e até para prevenção de terrorismo

cena inspirada no filme de um homem operando sistema holográfico

Em Minority Report, Tom Cruise é um policial que opera um sistema que prevê crimes / Shutterstock

 

Imagine viver num mundo em que crimes não acontecem porque a polícia pode prever quem o cometeria e evitar que seja concretizado? Parece o enredo do filme Minority Report, estrelado por Tom Cruise, em 2002. Mas prever o futuro não funciona tão bem na vida real.

Algumas cidades americanas têm usado um sistema de policiamento preditivo. Em Nova Orleans e Nova York, uma empresa do Vale do Silício foi contratada para usar Big Data no reconhecimento de prováveis criminosos.

Em 2013, com uma taxa de violência muito alta, o prefeito da cidade de Nova Orleans recorreu ao software de  análise de dados da Palantir Technologies. Com essa tecnologia vários membros de gangues foram capturados e o número de homicídios diminuiu. 

 

COMO FUNCIONA O SISTEMA

A parceria da empresa do Vale do Silício com a policia se baseava no uso e suporte técnico de um algoritmo que recolhia e analisava informações dos cidadãos.

Um analista do Departamento de Polícia de Nova Orleans (NOPD, sigla em inglês) examinava essas informações coletadas e determinava quais indivíduos tinham mais probabilidade de cometer um crime ou de serem vítimas.

Os dados sobre os indivíduos eram gerados com base em informações coletadas nas redes sociais, bancos de dados criminais, registros de presos em liberdade condicional e seus telefonemas, chamadas telefônicas para serviços públicos, sistema central de gerenciamento de casos. Sem contar o repositório de entrevista de campo feitas pelo departamento.

O NOPD então usou a lista de possíveis vítimas e criminosos  para direcionar as pessoas para o programa CeaseFire, implementado na cidade.

Esse programa é uma estratégia usada há muito tempo nos EUA que funciona na base de punição e recompensa. No programa, os potenciais infratores com antecedentes criminais são avisados que o departamento sabe de seus delitos passados e que serão julgados mais severamente se houver reincidência. Se escolhem cooperar, são “convocados” para uma reunião obrigatória e recebem treinamento profissional, educação e serviços de saúde.

 

PALANTIR, QUEM?

Fundada em 2004 por Alexander Karp e Peter Thiel (dono da PayPal), a Palantir Technologies se tornou uma das empresas mais valiosas do Vale do Silício, apesar de não ser tão conhecida pelo grande público como a Amazon ou o Facebook.

A companhia tornou-se referência em tecnologias de big data – sistemas dedicados ao tratamento de um grande volume de informações. Seu sistema já foi usado pelo Pentágono e alguns serviços de inteligência dos Estados Unidos para encontrar os suspeitos do assassinato de um agente de imigração e até para desmembrar redes terroristas na Síria. 

Curiosidade: o nome da empresa faz uma referência ao artefato mágico usado para ver o futuro retratado em Senhor dos Anéis por J.R. Tolkien.

Inicialmente, criada para funcionar como arma na “guerra contra o terror”, a empresa partiu em busca de novos clientes e começou a se especializar em segurança pública e corporativa. E isso levantou algumas sobrancelhas.

Segundo a Bloomberg, a empresa tinha um contrato com o JPMorgan para vigilância e levantamento de dados sobre os funcionários para evitar abusos de recursos corporativos.

Os funcionários sabiam e pareciam não se importar, alguns chegavam a plantar informações falsas em seus emails ou telefonemas só para ver se seria mencionado em reuniões. E era. De acordo com a publicação americana, o contrato foi encerrado quando os altos executivos do banco descobriram que eles também estavam sendo vigiados.

A Palantir também tinha um contrato com o departamento de polícia de Nova York, que começou em 2002. Foi encerrado por que o NYPD desenvolveu seu próprio software para continuar o trabalho de policiamento preditivo.

 

HÁ CONTROVÉRSIAS

O programa de policiamento preditivo usado em Nova Orleans tinha um problema sério. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Autoridades, advogados criminalistas e membros do conselho só souberam da existência do tal programa ao serem perguntados sobre ele por repórteres da publicação americana The Verge.

O desejo de sigilo do prefeito de Nova Orleans é compreensível. Em todos os lugares em que foi usado, o sistema de policiamento preditivo foi alvo de profundo escrutínio público culminando com pesquisas e estudos que levantaram dúvidas sobre a eficácia dos projetos.

Mesmo dentro da comunidade policial, há preocupações sobre as potenciais transgressões às liberdades civis, sobre o tipo de predição individualizada que Palantir desenvolveu em Nova Orleans, e se é apropriado para o sistema de justiça criminal americano.

Tanto que após a implementação de um policiamento baseado na predição, na cidade de Chicago, a atenção pública se concentrou na questão. 

Lutando para reduzir sua alta taxa de homicídios, Chicago instaurou um programa de policiamento preditivo, a chamada Heat List, uma lista gerada por algoritmos que identifica pessoas com maior probabilidade de estar envolvidas em um tiroteio.

Mas um relatório da RAND Corporation mostra que não é bem assim. De acordo com a pesquisa, na melhor das hipóteses, a lista seria tão eficaz quanto uma lista de procurados (most wanted).

A maior preocupação, segundo análise de um grupo de pesquisa com foco na defesa dos direitos humanos, era a possibilidade de atrair a atenção desnecessária da polícia para pessoas inocentes e a reprodução de tendências discriminatórias que afetariam negros e latinos – já houve um exemplo de como algoritmos carregam os preconceitos de quem programou com o erro do programa de reconhecimento facial da Amazon, o Rekognition.

Após os primeiros dois anos do envolvimento de Palantir com o NOPD, a cidade viu uma queda acentuada nos assassinatos e na violência armada, mas foi de curta duração.

Segundo The Verge, o ex-chefe do NOPD acredita que o efeito preventivo de convocar dezenas de indivíduos em risco – e indiciar alguns – começou a diminuir. Nos anos de 2016 e 2017, a cidade voltou a aparecer nos noticiários por conta da violência que tomou conta das ruas. 

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