fbpx

A humildade nos negócios é um problema na Suécia. E também pode ser para você

Redação DuMoney 3 de outubro de 2018 atualizado às 12:01

A humildade dos empresários traz resultados positivos na Suécia, mas pode estar travando um desenvolvimento maior e melhor dos negócios. 

 

A Suécia é uma espécie de Vale do Silício da Europa / Wikicommons

 

Na suécia, lar de algumas empresas de sucesso mundial como Spotfy, Skype, Ikea e King (empresa de jogos dona do Candy Crush), é raro ver empresários bem-sucedidos, andando por ai em carros de luxo ou se gabando de seus feitos no mundo dos negócios.

Apesar de ter apenas 10 milhões de habitantes, o país nórdico criou, recentemente, mais negócios bilionários per capita do qualquer outro lugar fora do Vale do Silício, nos Estados Unidos – o que lhe rendeu o nome de “fábrica de unicórnios“.

Lembrando: unicórnio é o nome que se dá a uma startup que atinge o valor de mercado de U$ 1 bilhão. No mês passado, o país ficou em primeiro na Europa no ranking de inovação global da agência Bloomberg.

COMPORTAMENTO DO SUECO É DIFERENTE NO MUNDO CORPORATIVO

Mas ao contrário do que se vê em outros centros de inovação, com CEOs celebridades anunciando seus trabalhos e conquistas, no mundo corporativo sueco o importante é “unir a todos e garantir que suas vozes sejam ouvidas igualmente para que se possa chegar à melhor solução possível juntos”, diz Lola Akerson, escritora do livro Lagom: The Swedish Secret of Living Well ( Lagom: A Arte Sueca Para Viver uma Vida Equilibrada).

Conforme diz no livro, no paraíso das startups, a modéstia e a humildade são quase regra. Isso vem de um costume antigo que se manteve por gerações. No livro, a sueca explica esse comportamento baseado nas palavras Jantelagen Lagom.

As expressões significam coisas diferentes, mas ambas descrevem uma tradição centenária que desencoraja a ostentação da riqueza ou do sucesso e a subversão a hierarquias.

A palavra jantelagen –  (Lei de Jante, em tradução livre), nome que vem da cidade de Jante, retratada em um romance de 1933 do autor dinamarquês-norueguês Aksel Sandemose – condensa a ideia de que “ninguém é melhor do que ninguém”.

Já a palavra lagom – adotada por correntes do minimalismo – expressa a ideia de “nem muito, nem pouco. O suficiente”. O papo tem cara de autoajuda, mas especialistas começaram a observar como esse comportamento afeta os negócios.

“No local de trabalho, a Jantelagen cria um ambiente mais colaborativo, em vez de um mais competitivo, porque busca remover os pontos de atrito gerados pela concorrência e o sentimento de que você é superior aos outros”, diz Lola.

Em entrevista á BBC, a ex-gerente de expansão internacional do Spotify, Ulrika Viklund, argumenta que o aspecto mais positivo da Jantelagen na cena de startups é que isso incentiva as pessoas a se ajudarem mais. No entanto esse comportamento de evitar vangloriar-se pode prejudicar a cena tecnológica na suécia.

“Geralmente não temos um chefão sentado no canto tomando todas as decisões. No Spotify, não seria possível ter sucesso sem essa cultura de trabalho em que todas as habilidades da companhia são utilizadas, porque todos podem ser inovadores e dizer o que acreditam ser a coisa certa a se fazer. As pessoas que fazem sucesso não se atrevem a dirigir um carro de luxo, não se atrevem a mostrar quando fazem algo bom. Talvez isso tenha tornado mais difícil inspirar empreendedores. Torna mais difícil termos modelos para seguir”

SENSAÇÃO DE QUE PODERIAM ESTAR MELHOR AINDA

As startups suecas atraíram investimentos na casa de US$ 1,6 bilhão (R$ 5,2 bilhões), em 2017, segundo o banco de dados europeu Dealroom.com. Mas em comparação com Alemanha (US$ 3,6 bilhões) – R$11,6 bilhões -, e a Inglaterra com US$ 9,7 bilhões – R$ 28,4 bilhões – acaba sendo pouco, mesmo levando em consideração o tamanho do país. O case sueco tem números significativos, mas há quem questione se a Jantelagen e a Lagom estariam impedindo empresas de chegar ainda mais longe.

À BBC Sofia Wingren, presidente da Hyper Island – uma escola de negócios em Estocolmo dedicada a preparar profissionais para o mercado de tecnologia -, disse que, de acordo com pesquisas, o empreendedor recebe investimentos de acordo com o quanto demonstra confiança e se vangloria de sua ideia

Enquanto isso, há o desafio de manter a ênfase na confiança e no consenso que caracterizam as práticas de negócios suecas diante da crescente competição global de outros centros de inovação e a rápida digitalização.

Com relação ao nosso país, o empresário e especialista em startups, Rodrigo Carneiro, avalia que um pouco da  humildade dos suecos não faria mal aos brasileiros.

“Vejo a dificuldade de relacionamento entre corporações e startups e vice-versa. A corporação vem com a intenção de criar uma área de inovação, mas lida com as startups com uma mentalidade hierárquica, encarando empresas de tecnologia como se fossem consultorias ou empregadas. Chegam fazendo exigências. E as startups não funcionam assim. Se a grande empresa chegasse e apresentasse o problema de forma menos autoritária, seria diferente. Da mesma forma que, muitas vezes, o CEO de uma startup em crescimento para de olhar para determinados mercados porque acha que está grande demais. Acho que o brasileiro poderia aprender um pouco com essa humildade sueca, seja do lado das corporações, seja do lado das startups.”

 

Em Empreendedorismo

Recomendadas para você