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Teste do Marshmallow: o autocontrole para uma vida financeira estável

Redação DuMoney 13 de julho de 2018 atualizado às 09:43

Segundo psicanalista, a capacidade de resistir às tentações, essencial para uma vida financeira saudável, pode ser aprendida. Experimentos como o Teste do Marshmallow pode dar indícios sobre o comportamento financeiro 

marshmallow serve como unidade de medida

Há mais de 50 anos, Marshmallow serve como unidade de medida de autocontrole / Crédito: Shutterstock

 

O manual de uma vida financeira bem-sucedida não é segredo para ninguém – devemos nos qualificar, trabalhar duro e economizar dinheiro. Mas andar na linha não é tão simples quanto pode parecer: por trás das tentações, há um intricado sistema cerebral que tenta nos levar para o mau caminho.

Se vamos ceder às vontades ou não, depende do nosso autocontrole. Nas finanças, o brasileiro não anda bem nesse quesito: o percentual de famílias brasileiras com dívidas fechou 2017 em 62,2%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Pelo viés da economia, o autocontrole ajuda os indivíduos a seguirem metas financeiras traçadas anteriormente, tal como poupar para ter a entrada da casa própria, ou realizar um plano de previdência privada e seguir com ele até a sua aposentadoria definitiva.

COMO FUNCIONA O TESTE

Um exemplo típico do quanto o autocontrole é uma aptidão-chave por trás da inteligência emocional, essencial para construir uma vida satisfatória, é o chamado “Teste do marshmallow”. A guloseima, uma das preferidas dos americanos, há mais de 50 anos serve como unidade de medida de autocontrole no mundo todo – desde que o psicólogo Walter Mischel, da Universidade Columbia, em Nova York, se dedicou a estudar a capacidade de resistir à tentação, nos anos 60.

Para o teste, o psicólogo recrutou crianças com diversas idades na escolinha das filhas e as colocou num quarto, sentadas de frente para uma mesa com um prato com um marshmallow. Falou para cada uma delas que poderiam comer o marshmallow na hora, ou esperar um pouco, e aí ganharia dois marshmallows. Nesse instante, Mischel deixava as crianças sozinhas no quarto, de frente para o doce, e registrava a reação de cada uma com uma câmera oculta. Não existia nenhum tipo de distração – brinquedo, fotos na parede, nada, só a tentação do marshmallow.

RESULTADO SURPREENDENTE

O resultado foi pura agonia. As crianças cheiravam o doce, lambiam, colocavam de volta na mesa. Outras ficavam chutando a mesa, viravam de costas, ficavam cantarolando. Uma infinidade de comportamentos agonizantes, onde uns comiam e outros esperavam. Foram testadas 500 crianças. Mas o mais impressionante foi o que aconteceu anos depois, quando os indivíduos estariam prestando o equivalente ao nosso ENEM, um dos testes mais importantes na carreira escolar americana.

Aqueles garotos de 4 anos que esperaram mais tempo antes de comer o doce foram os que tiveram as melhores notas nos testes. Notas muito melhores mesmo, uma diferença gritante. Além disso, outros estudos mostraram que as crianças com resistência maior no teste do marshmallow entraram em melhores escolas, tinham um comportamento melhor. Em nítido contraste, aqueles com resistência menor eram classificados pelos pais como garotos problemáticos.

MELHORES EMPREGOS, MELHORES SALÁRIOS

Esses resultados foram tão estranhos que Walter decidiu continuar o estudo. Fez uma análise muito mais profunda dos mesmos indivíduos, 40 anos depois do teste do marshmallow. Tudo era melhor nos garotos que tiveram mais autocontrole aos 4 anos: melhores empregos, salários mais altos, até a condição física era melhor. Os dados são tão fortes que fazem pensar: será que esse teste, aos 4 anos de idade, consegue realmente prever como vai ser a vida adulta dessas crianças? Uma interpretação desses dados, que não pode ser descartada, é que o autocontrole é geneticamente programado em cada pessoa, em cada cérebro.

Mas, felizmente, existem outras formas de interpretar esses dados. Walter revisitou os vídeos das crianças aos 4 anos e concluiu que absolutamente todas as crianças passavam pela agonia do açúcar, mesmo aqueles que seguraram a tentação por mais tempo. Eles não foram modelos de força, também sofreram no teste. A única diferença entre os dois grupos de crianças, foi que as crianças que seguraram por mais tempo simplesmente acharam formas de se distrair da tentação: virando as costas, falando sozinhas, cantando, até brincando com o doce de alguma forma. Pois bem, esses garotos simplesmente tinham uma melhor estratégia para lidar com a situação. E estratégia pode ser ensinada, adquirida.

AUTOCONTROLE PODE VIR COMO TENDÊNCIA DO BERÇO

“Nascemos com diferenças individuais e temos evidências de bebês com maior ou menor capacidade de suportar frustração, mais ou menos calmos, vorazes, agressivos – enfim, toda sorte de nuances da personalidade humana. Devido à nossa relativa plasticidade mental, essas inclinações poderão ser ajustadas, modificadas ou acentuadas de acordo com as experiências de vida, relação com os pais e, o que é mais importante, a maneira com que cada indivíduo processa isso tudo. Autocontrole pode vir como tendência do berço, mas pode também ser perdido ou adquirido. A vida ensina, corrige, estraga ou acentua”, afirma o psicanalista Paulo Sternick.

Para ele, o teste, de certa forma, revela que existe um perfil das pessoas mais suscetíveis aos problemas advindos da falta de autocontrole – como contrair dívidas, por exemplo:

“São pessoas compulsivas, impulsivas, com baixa tolerância à frustração, que não sabem esperar ou adiar algo para poder pensar melhor. Isso pode acarretar não apenas dívidas, mas uma série de muitos outros problemas. Provavelmente criam atritos sociais e familiares”.

Sternick ressalta que, quando se fala em autocontrole, a menção implícita é a de que há algo a ser controlado: impulso, medo, desejo, ódio – enfim, as pulsões que nos constituem e que requerem uma mente para lidar com elas.

“Impulsos todos os seres vivos têm – a mente, com a capacidade de pensar que os humanos desenvolveram através dos milênios, é privilégio nosso. Convém aproveitá-la, em sua capacidade de reconhecer os fatos e a realidade. Principalmente, conhecer como ela própria funciona, distorce, se ilude e se equivoca”.

“VOU TORRAR TUDO COM COISAS PARA MIM”

Patrícia Lucena, 35 anos, técnica de informática de escola pública, de Barueri (SP), vinha sendo a criança que não espera pela recompensa. Ela conta que sempre teve dificuldade de gerir seu próprio dinheiro. Sua dívida chegou a R$ 30 mil:

“Fui criada num ambiente de escassez e quando conquistei meu primeiro emprego, lembro de ter pensado: ‘Vou torrar tudo com coisas para mim!’. Comecei a gastar como nunca pude e a fazer dívidas no cheque especial e no cartão de crédito”, lembra Patrícia.

Em 2015, já casada havia 10 anos, ela engravidou. Mas, durante a gestação, seu marido ficou desempregado e descobriu que estava doente. Até conseguirem reverter a situação, Patrícia conta que se sentia num buraco negro.

“Conseguimos tratamento público e um tempo depois ele conseguiu um novo emprego, mas foi mais um baque nas contas, fora que ficamos emocionalmente muito abalados. O basta para mim veio um oficial de justiça entregar uma intimação porque a gente não vinha pagando o condomínio. Meu filho já tinha 4 meses. Eu tinha uma vida para cuidar e as coisas precisavam mudar. No fim do ano passado, entrei numa jornada em busca de autoconhecimento e educação financeira. Comecei assistindo canais de YouTube e depois procurei um consultor financeiro, que me indicou alguns livros, planilhas, cursos e palestras”.

Ela explica que o primeiro problema era sua falta de capacidade de pagamento, por causa do cartão de crédito e do cheque especial. O salário entrava e só cobria o buraco da dívida e o banco não aceitava negociar. Foi quando ela fez a portabilidade bancária para passar a receber seu salário e aí, sim, foi negociar com o banco o pagamento da dívida:

“Aprendi que a primeira coisa que preciso fazer quando recebo meu dinheiro é me pagar. Se eu não separar um dinheiro para poupar, nunca vai sobrar uma parte para mim. Comecei a investir no Tesouro Direto para fazer esse dinheiro crescer.  No momento, minha poupança está em R$ 8 mil. Hoje eu sou dona do meu dinheiro”.

E você, tem sido a criança que come o marshmallow ou aquela que prefere esperar por algum tempo para desfrutar de uma recompensa maior no futuro?

 

 

 

           

 

 

 

Em Economia Comportamental

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