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Daniel Simons, de ‘O Gorila Invisível’: ‘Há limites na capacidade de atenção’

Redação DuMoney 17 de julho de 2018 atualizado às 15:15

Em entrevista ao DuMoney, o renomado psicólogo fala sobre cegueira intencional e as influências da tecnologia na mente das pessoas

Daniel Simons, de 'O Gorila Invisível'

Experimento com gorila pode ser  lição sobre economia / Foto: Universidade de Illinois

 

Redação DuMoney

Um gorila batendo no peito nos ensina que muito do que se passa diante dos nossos olhos é invisível para um cérebro que está focado em outras atividades percebidas como mais urgentes. Estamos falando do experimento chamado “O Gorila Invisível”, do cientista cognitivo, psicólogo experimental e professor da University of Illinois, Daniel Simons, em parceria com o também psicólogo Christopher Chabris. Sua pesquisa acadêmica é focada nos limites da percepção, memória e consciência humana. Em entrevista ao DuMoney, Simons revela bastidores da produção do vídeo do experimento e opina sobre o papel da tecnologia na memória e na construção de conhecimento.

O que deu a você e Christopher Chabris a ideia para o estudo do gorila invisível?

R: O experimento foi inspirado pela pesquisa de Ulric Neisser, feita nos anos 70. Ele fez com que uma mulher com um guarda chuva cruzasse um jogo de basquete. Nós filmamos várias versões diferentes do vídeo original, usando tanto a mulher com guarda chuva quanto um gorila. Os vídeos envolvendo o gorila eram apenas dele andando no meio de tudo sem parar no meio, o que dava aproximadamente cinco segundos. O vídeo que se tornou tão popular, na verdade, é uma reflexão posterior. Já tínhamos terminado o que planejávamos fazer para nosso experimento, mas tínhamos tempo e alunos disponíveis, então tentamos algumas outras coisas estranhas.

Quais coisas?

R: Por diversão, tentamos a versão em que o gorila pára no meio da ação, vira para a câmera e bate no peito antes de sair. Não tínhamos certeza se daria tudo certo sem que as bolas ou os jogadores batessem no gorila, mas tudo funcionou no primeiro “take”. Depois que conduzimos o experimento principal (com o gorila apenas passando), nós passamos o vídeo dele parando e batendo no peito para ver se as pessoas continuariam não o vendo, mesmo com ele na tela por nove segundos, quase o dobro dos cinco segundos originais. Para nossa surpresa, funcionou tão bem quanto o outro, e produziu uma demonstração ainda mais dramática da cegueira inatencional.

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Em sua opinião, o que o experimento pode ensinar àqueles que não viram o gorila?

R: O principal ensinamento do estudo é que a maioria das pessoas acredita erroneamente que vai notar eventos importantes e inesperados automaticamente, que eles (os eventos) vão chamar nossa atenção. É por isso que as pessoas ficam tão surpresas quando não veem o gorila – elas assumem que o veriam. Na realidade, nós tendemos a perder eventos inesperados quando estamos com nossa atenção focada em outra coisa.

 

Existe algo que possamos fazer para treinar nossa habilidade de realizar múltiplas tarefas e evitar perder o que está acontecendo à nossa volta?

R: Não existem muitas evidências de que podemos eliminar a cegueira inatencional ou melhorar significativamente a execução de múltiplas tarefas. Há limites na nossa capacidade de atenção e na quantidade de informação que chega à nossa consciência, e ambos parecem bem similares para todo mundo. E, mantenha em mente, nosso fracasso em notar eventos inesperados é um subproduto da nossa habilidade de manter o foco em coisas com as quais nos importamos e evitar distrações.

A tecnologia ajuda ou dificulta o funcionamento da nossa mente?

R: A ideia de que a Internet nos deixa burros tem uma base intuitiva, porque é fácil perceber que o desempenho cognitivo das pessoas fica mais baixo quando estão distraídas. Mas, por outro lado, a noção de que foco prolongado e leitura profunda são o melhor caminho para sabedoria e discernimento é apenas uma suposição. Os alarmistas citam o conceito de “plasticidade neural” e falam sobre a tecnologia “reescrever” o cérebro para nos convencer que as novas distrações nos fazem não menos dispostos, mas menos capazes, a nível psicológico, de nos concentrar. A maioria das evidências mostradas por esses críticos são anedóticas (evidências não comprovadas): Eles dizem que se sentem menos hábeis a se concentrar e pensar claramente agora do que antes de começarem a usar a internet. Mas pode ser que sejam menos hábeis a se concentrar agora do que eram há 10 ou 15 anos simplesmente porque eles são mais velhos. Faz menos sentido focar nas capacidades de um indivíduo e mais sentido pensar sobre o indivíduo em conjunto com a nuvem de tecnologia e informação a qual ele tem acesso a qualquer momento. Esse coletivo humano-computador-internet é mais bem informado e indiscutivelmente mais inteligente do que um único ser humano poderia ser sozinho. Partindo desse ponto de vista, quanto mais informação estiver disponível na internet, nos tornamos não mais burros, mas mais inteligentes. Para toda forma que a internet nos dá para desperdiçar nosso tempo, há uma forma de aumentar o escopo e a diversidade de nosso conhecimento e de trabalhar problemas coletivamente.

Quais são os seus trabalhos mais recentes?

Desde o “Gorila Invisível”, publiquei alguns artigos explorando outros aspectos da cegueira inatencional. Destaco textos como “Os efeitos da idade e as implicações para motoristas”, “Como a depressão e a ansiedade deixam as pessoas mais suscetíveis à cegueira inatencional” e “Se vídeo-games de ação melhoram a percepção e a cognição”.

Em Economia Comportamental

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